Há crises que são silenciosas, discretas, quase elegantes. E há crises que escolhem hora, local e câmera ligada para acontecer. A ausência combinada de Davi Alcolumbre e Hugo Motta na cerimônia de sanção do novo Imposto de Renda (um dos projetos mais populares do governo Lula) pertence ao segundo grupo. É o tipo de gesto que não apenas fala, mas grita.
Lula queria a foto. Queria o gesto de unidade. Queria os presidentes da Câmara e do Senado ao seu lado enquanto assinava uma medida que eleva a isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil. O Congresso aprovou, o Planalto ajeitou a mesa, a imprensa posicionou os microfones. Só faltaram eles; e não foi por acaso.
| O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), a direita, e o do Senado do União Brasil, Davi Alcolumbre (AP), à esquerda na imagem - |
A dupla, até então ocupada brigando com Jaques Wagner e Lindbergh Farias, agora aponta o dedo diretamente para o presidente. O recado é simples: a crise deixou de ser com líderes do PT e passou a ser institucional. O desconforto, que vinha crescendo nos bastidores, virou ato público.
Alcolumbre transformou a indicação de Jorge Messias ao STF numa guerra pessoal. Queria Rodrigo Pacheco na vaga de Barroso. Não levou. Desde então, opera sistematicamente para desgastar o AGU, inclusive com a marcação estratégica da sabatina da CCJ; apertada, quase hostil. Um aviso: não contem comigo para facilitar.
Motta, por sua vez, acumula atritos como quem coleciona medalhas. Trabalhou contra o aumento do IOF, irritou o Planalto e elevou a tensão ao indicar Guilherme Derrite para relatar o projeto Antifacção. A escolha foi vista como provocação. O PT reagiu mal, muito mal. Motta agora acusa o partido de Lula de agressão política nas redes, chamando-o de aliado de banqueiros.
A soma é simples: dois presidentes de Poder escancarando descontentamento, uma cerimônia de governo esvaziada e um Planalto que percebeu tarde demais que a conta chegou. O gesto público desta manhã não é apenas uma ausência. É um rompimento anunciado. Um capítulo novo que Lula preferia não inaugurar.
E quando os chefes das Casas Legislativas decidem boicotar a foto oficial, não é só o governo que perde. É o país que percebe que, por trás da pauta econômica e dos discursos de unidade, Brasília segue refém de disputas que nada têm a ver com o que realmente importa.
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