A Câmara amanheceu hoje com aquele cheiro conhecido de crise institucional requentada. Hugo Motta, presidente da Casa e recém-alçado à posição de fiador do suposto “equilíbrio” nacional, decidiu puxar o freio de mão na discussão da anistia; aquela mesma que, desde o começo, nunca foi sobre pacificação, mas sobre blindagem política em alta voltagem.
Segundo relato de lideranças, publicado pela CNN, Motta anda repetindo que o momento “está conturbado” e que colocar o tema para votar agora seria “jogar lenha na fogueira”. A frase, em si, traduz o que Brasília faz de melhor: vender autocontenção como virtude quando, na prática, o medo é de incendiar o próprio telhado.
| O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), ao centro, e o líder do PL, Sóstenes Cavalcante (RJ), à esquerda na imagem - |
E a fogueira está acesa. A prisão preventiva de Jair Bolsonaro devolveu musculatura ao tema da anistia, que já vinha perdendo ar. No rastro disso, o relator Paulinho da Força tenta vestir o projeto com um figurino mais palatável: nada de perdão amplo, apenas uma recalibragem de penas; o famoso PL da Dosimetria. Mas o PL (o partido, não o projeto) tem outros planos: se vier dosimetria, eles emplacam o destaque pela anistia total. E, segundo eles, votos não faltam.
O que falta é a boa vontade de Hugo Motta. Ou, como insinua Sóstenes Cavalcante, falta “cumprir o combinado”.
Em entrevista à CNN, o líder do PL despeja a versão completa: quando decidiram apoiar Motta e Alcolumbre para os comandos da Câmara e do Senado, Bolsonaro (ainda solto à época) teria alinhado pessoalmente o acordo. Em troca do apoio, dois compromissos: vice-presidências das Casas para o PL e a votação da anistia.
Nada mais. Nada menos.
Sóstenes afirma que, desde fevereiro, não pediu outra pauta a Motta. Apenas a anistia. E lembra que, quando a urgência foi votada em setembro, ele prometia 309 votos; conseguiram 311.
A conta fecha, o acordo existe, o apoio foi entregue. O problema é que o relógio andou, o cenário mudou e, agora, Bolsonaro está preso. E, do lado de fora, o combinado virou bomba relógio no colo de Hugo Motta.
O desgaste entre Motta e Sóstenes apertou a rosca na semana passada, quando divergiram no projeto antifacção. Não foi apenas um debate técnico: foi atrito político puro. Eles estão sem se falar há mais de uma semana. Sóstenes, ressentido, passou a buscar atalho: leva pleitos da oposição diretamente a Davi Alcolumbre; inclusive o veto ao nome de Jorge Messias para o STF.
Traduzindo: se a Câmara não abre a porta, a oposição tenta entrar pela janela do Senado. E Hugo Motta sabe disso. Sabe, sobretudo, que colocar a anistia para votar hoje é colocar seu próprio futuro político à mercê de uma guerra que não controla.
Porque é isso que a anistia virou: uma bomba com nome, sobrenome e CPF.
O país vive um acirramento político real, que afeta instituições e derruba a temperatura do debate público para o nível de lava vulcânica. A anistia (seja ampla, seja disfarçada de dosimetria) não surge da vontade de “unir o país”, mas de resolver pendências internas de um grupo que decidiu transformar o Congresso em bunker jurídico.
E, como sempre, quando o jogo fica instável demais, Brasília apela ao velho expediente: empurrar com a barriga. Motta diz que não é hora. A oposição diz que já passou da hora. Quem perde é o debate público, sequestrado por tratativas de bastidor que tentam moldar a história pela via do improviso.
No fim, Sóstenes resume tudo em uma frase que deveria ser lida com atenção:
“Dependemos de uma única pessoa: Hugo Motta.”
E é exatamente aí que mora o perigo. Quando a democracia depende de uma única pessoa, geralmente significa que o sistema já cedeu mais do que deveria.
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